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Crónica A Voz à Juventude (18) Chorar as Pedras da Calçada

Jornal Correio do Minho




"Correio do Minho" 19/03/2013

Chorar as pedras da calçada



Ao abrigo do programa “A Regenerar Braga”, assistimos a uma completa operação cosmética da nossa cidade.

As vetustas pedras da calçada, as guias e lancis graníticos foram substituídos por elementos semelhantes, mas de pior qualidade. Hoje, em quase todas as praças e largos contemplados pela regeneração urbana, assistimos a lajes fraturadas, a buracos desmesurados, a automóveis a fazer desvios e a peões que soltam queixumes por terem enfiado o pé na armadilha.

Perante as queixas e as dúvidas dos cidadãos, o executivo municipal responde com “as obras ainda estão no período de garantia, por isso, compete às empresas substituir o material danificado”. Quem dá uma resposta destas, provavelmente não circula muito pelas áreas afetadas, dado que, sempre que as empresas procedem a obras de retificação dos materiais, têm de interromper ou desviar o trânsito, causando perturbações na normal circulação dos automóveis e peões.

Há pouco tempo, caminhava por uma rua do centro histórico, não contemplada por estas obras e reparei que algumas pedras que faziam de calçada eram, nada mais, nada menos, antigas canalizações de pedra, por onde circularia água, que a dada altura foram reaproveitadas para fazer passeios. Ainda era possível vislumbrar o local dos “raposos” (abertura por onde se efetuava a limpeza das canalizações), bem como a marca de talhe da pedra. E pensei para comigo, quantas das pedras dos nossos passeios possuem histórias tão longas como a História de Braga?! Andei mais uns metros e deparei-me com outras tantas pedras reutilizadas para passeios, que configuraram, a dada altura, elementos arquitetónicos de habitações. E rapidamente fui assaltado pelo pensamento: “ se esta pequena rua possui tantos elementos antigos, o que se terá perdido nas rua/praças/largos que foram alvo da regeneração urbana?”.

Ao lembrar-me que as pedras arrancadas à urbe foram colocadas em depósito numa freguesia de matriz rural, sem ainda lhes ser aventada uma nova utilização, fiquei com a sensação que o Município amputou uma pequena parte da História do Centro da Cidade, remendando-a com uma tentativa de reconstruir história, de inferior narrativa. Uma vez mais, dei comigo a pensar na falta de orgulho que o executivo municipal tem da História de Braga, não sabendo valorizar os elementos que tornam a nossa cidade numa identidade distinta de outras cidades.

Lembro que o património, arquitetónico ou arqueológico, mais ou menos monumental, possui uma História, algo que contado é único e permite dar a conhecer algo sobre nós mesmos. Mas mais de que uma atitude contemplativa, o património é fator de atração e ancoragem no vetor económico de uma cidade, porque mexe com outro setor que dá poucos sinais de contração: O turismo. O turista procura conhecer a cidade, a sua história e vai à procura do mapa, da sinalética, do museu, do hotel, do restaurante, da loja de recordações e usa algum meio de transporte. Isto mexe diretamente com a economia do país, que se traduz em postos de trabalho, em investimentos financeiros e em produção. Por outro lado, há a recompensa etérea de alguém que conheceu uma cidade, que gostou e voltou…por mais dias, com mais amigos e com mais vontade de conhecer o que ficou por descobrir da primeira vez.

E as pedras da nossa calçada, velhas, gastas e rompidas eram um fator de atração se fosse contada a sua história ao turista, ao visitante e, em primeira instância, ao cidadão e residente naquela rua.

Quem ama não deixa estragar, pois valoriza a sua identidade.

Quem não tem esta visão de cidade, e tem atitudes lesa memória, só pode, naturalmente, “fazer chorar as pedras da calçada”.

Artigo também disponivel no site do Correio do Minho!



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