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Crónica A Voz à Juventude (7) Tirar a Máscara para Cuidar de Braga

Correio do Minho




"Correio do Minho" 21/02/2012




Tirar a máscara para cuidar de Braga

Hoje é dia de Carnaval.

Esta celebração, além do caracter lúdico que tem, serve dois objetivos distintos. O primeiro é a diversão, aproveitar um tempo de paródia para expurgar tristezas e encorpar folias de que somos privados no quotidiano quando estamos a estudar ou a trabalhar. O segundo objetivo visa escondermo-nos da realidade e assumirmos uma identidade diferente, transportando-nos para um imaginário alternativo, em que os fracos são fortes, os homens são mulheres, em que as crianças são adultos e os adultos podem ser super-heróis e/ou personagens monstruosas e assustadoras. Quando escondemos a cara, somos quem nos apetece ser, temos a liberdade para dizer o que nos vai na alma e agimos conforme queremos. E toda esta liberdade põe em risco a própria liberdade. Permitam-me dizer que nada melhor que o Carnaval para relembrar algumas coisas que me parecem estranhas, verdadeiros dislates mascarados de tom sério, que atentam contra a moral da causa pública.

Fomos brindados com a fragilidade do pensamento construtivo da cidade, quando finalmente se admitiu que as Piscinas Olímpicas do Parque Norte nunca mais o serão, tendo em conta que após oito milhões de euros gastos e muitos anos depois pode haver a hipótese de entregar a estrutura inacabada à iniciativa privada. Correram notícias nos órgãos de comunicação social e houve pedidos de esclarecimento. Assisti, com alguma admiração, a um vídeo de uma conferência de imprensa no fim de uma reunião de executivo da Câmara em que o Senhor Presidente disse que nada mais tinha a dizer sobre o assunto e que tinha sido muito claro na sua mensagem sobre as Piscinas.
Na mesma altura, abriu mais um fosso na cultura social da nossa cidade quando afirmou que em Braga os sem abrigos só o são porque querem, contrapondo a afirmação de um sem-abrigo que a um repórter afirmou não ter para onde ir.

E se uns não têm sorte e não vão podendo escolher o fado da sua vida, choca-me que muitas pessoas façam verdadeiros murais de lamento sobre a morte de uma popular cantora norte-americana que, não cuidando a sua vida, entrou em processo degenerativo que culminou com o seu aparecimento inanimado numa banheira de um quarto de hotel. Lamento a sina que escolheu, mas teve nas suas mãos a capacidade de inverter o caos em que mergulhou. Incomoda-me o facto de se tributarem homenagens multiplicadas infinitamente a esta cantora pois além de não acreditar na idolatria gratuita de endeusar as pessoas, parece-me estranho que poucos bracarenses tenham ficado incomodados com esta falta de “cuidar do próximo e cuidar da cidade”.

Todos somos humanos, todos cometemos equívocos e todos devemos ter oportunidade para pedir desculpa e emendar as opções erradas que vamos tomando, tendo por objetivo proporcionar o bem “ ao nosso próximo”. Nitidamente, esta referência bíblica ganha expressão quando temos a assunção de querer fazer mais pela causa pública, de forma clara. O não esconder a cara em alturas de crise é assumir que o “próximo” pode ser qualquer um de nós e preocupante é a pobreza envergonhada que nos levou a um falso estilo de vida e que conduziu o país ao sobreendividamento. E noto aqui o meu espanto ao ouvir que há uma primeira geração de pais que contraem dívidas para sustentar filhos com idade para serem financeiramente independentes e que estando desempregados, não têm como sustentar os seus próprios filhos (de forma simples, os avôs cuidam dos filhos e dos netos).

Falamos de crise, falamos da necessidade de assistência às pessoas e, tanto quanto me parece, Braga está mais interessada em discutir as candidaturas dos hipotéticos candidatos à Câmara de Braga. Mas assim sendo, então que os próximos candidatos se preocupem em demonstrar uma postura mais humana e mais preocupada com as pessoas, porque em tempos de crise, há que dar valor às coisas em vez de estar preocupado com o preço delas (lembrando um pensamento do Prof. Adriano Moreira). Em dia de carnaval, rogo para que se tire a máscara do comodismo e que se invista na cidade social, porque no carnaval e no resto do ano ninguém pode levar a mal querer uma cidade melhor!

Esta crónica pode ser lida no site do Jornal "Correio do Minho"!





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